Nota: este artigo de opinião foi originalmente publicado no EUobserver em 5 2023 julho
As negociações sobre a Diretiva de Devida Diligência Sustentável Corporativa da UE (CSDDD) estão chegando ao estágio final, após a recente votação do relatório do Parlamento Europeu.
A diretiva proposta foi saudada pela sociedade civil como um potencial divisor de águas para uma economia global mais justa e sustentável, mas uma parte substancial dos partidos políticos de centro e de direita e (uma minoria de) empresas a denunciaram como burocracia que prejudicaria prejudicar a economia da UE.
Muitos dos primeiros frequentemente apelam para valores religiosos, em total contraste com um número crescente de líderes religiosos que veem a proteção do meio ambiente de danos corporativos como uma tarefa crucial para igrejas modernas e grupos religiosos.
Antes do segundo trílogo político entre a Comissão, o Parlamento e o Conselho da UE, a CIDSE – a família internacional de organizações católicas de justiça social – lançou um afirmação assinado por mais de 150 líderes religiosos em todo o mundo, pedindo aos legisladores da UE que adotem uma lei forte que responsabilize as empresas por danificar o meio ambiente e abusar dos direitos humanos.
Esta não é a primeira vez que líderes religiosos se manifestam a favor de leis obrigatórias para prevenir e remediar abusos corporativos: em 2020, mais de 230 bispos católicos assinaram uma declaração para pedir o que teria se tornado o projeto de lei.
Desta vez, a convocação inclui líderes cristãos de diferentes religiões, tanto homens quanto mulheres. Mas por que os líderes religiosos se preocupam com a responsabilidade corporativa enquanto uma grande parte da classe política, que muitas vezes não tem escrúpulos em fazer referências retóricas a valores religiosos, parece não entender a gravidade do problema?
Testemunhando
A razão pode estar na proximidade das comunidades de fé com as vítimas de danos corporativos e na valorização do nosso planeta como um lar comum. Muitos líderes religiosos testemunham os impactos brutais em suas comunidades de atividades corporativas não regulamentadas.
Quando em 2019 uma barragem de rejeitos de mineração certificada como segura por uma empresa multinacional europeia desabou em Brumadinho, Brasil, matando centenas e destruindo o meio ambiente local, muitas pessoas buscaram abrigo e alívio em igrejas locais e com grupos religiosos.
O Bispo local agiu e ofereceu a igreja como um santuário para a comunidade local e as vítimas do desastre para construir solidariedade e acessar alívio imediato, após o desastre.
O bispo e sua congregação se posicionaram ao lado da comunidade e criticaram as ações das corporações brasileiras e alemãs envolvidas no desastre, com consequências diretas para a segurança da comunidade da igreja local.
Em Moçambique, quando as ações de empresas europeias contribuíram e agravaram a violência em curso em Cabo Delgado causando deslocamentos em massa, o bispo local foi um dos primeiros a apontar a papel das indústrias extrativas nas convulsões locais.
Igrejas, mesquitas e locais de encontro de outras religiões muitas vezes são prósperos centros comunitários.
Especialmente no Sul Global, eles são o lugar para o qual as pessoas tendem a recorrer quando seus meios de subsistência e seu meio ambiente são ameaçados por atividades corporativas, para encontrar conforto e se organizar. Além disso, uma visão de mundo baseada na fé nos permite ver a terra como mais do que a soma das partes das quais o lucro pode ser extraído, mas sim como nosso lar comum ao qual todos pertencemos e compartilhamos o dever de cuidar.
Parte de nossa classe política europeia carece de proximidade com aqueles que vivem a realidade do abuso corporativo e de uma visão de mundo que vá além das projeções de margens de lucro. A resistência contra o CSDDD é outro exemplo de políticos de centro e centro-direita obstruindo uma lei para proteger as comunidades que são afetadas ou podem ser afetadas.
Com efeito, o recente oposição conservadora à proposta de Lei de Restauração da Natureza, uma lei que visa acabar com a perda catastrófica de vida selvagem e habitat na Europa no momento em que nosso planeta está em crise, é outro sinal dessa cegueira.
A falta de proximidade com as comunidades e uma visão de mundo utilitária podem explicar por que políticos de países como a Alemanha, a maior economia da União Europeia, se esforçaram tanto, tanto no Parlamento Europeu quanto nas discussões interministeriais, para reduzir o escopo e eficácia da diretiva CSDD da UE e reduzir a proteção das vítimas.
Ou por que a França tem pressionado para excluir as instituições financeiras do texto, ou o comércio mortal de armas.
O trílogo em andamento oferece aos políticos a oportunidade de mostrar que seus valores religiosos e morais não são meros acessórios a serem exibidos antes do período eleitoral. Já passou da hora de, como sociedade, aproveitarmos a oportunidade para fazer melhor. Que este apelo dos líderes religiosos seja a ocasião para defendermos os valores que nos unem a todos por meio de um compromisso real de construir uma economia solidária e de cuidado com as pessoas e com o planeta.
Informações adicionais: “Líderes religiosos globais se unem em apelo urgente por uma diretiva de devida diligência da UE forte”, declaração disponível em EN / ES / FR / DE.
Sobre os autores:
– Sra. Josianne Gauthier é secretário-geral da CIDSE, a família internacional de organizações católicas de justiça social com sede em Bruxelas.
- Mons. Vicente de Paula Ferreira é Bispo da Diocese Católica de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia (Brasil).
Crédito foto da capa: Guilherme Cavalli

